Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2026

Milhafre-real: veneno, vigilância e a tarde mais triste

Imagem
O milhafre-real (Milvus milvus) é uma das aves mais emblemáticas da campina europeia. Espécie endémica do Paleárctico Ocidental, nidifica desde a Península Ibérica até à Europa de Leste e ao sul da Suécia. A população mundial estima-se entre 60.000 a 70.000 casais, dos quais 95% nidificam na Europa. Depois de um período preocupante de declínio no final do século XX, a espécie recuperou mais de 30% na última década e mais de 80% nas últimas três gerações, tendo passado do estatuto de "Quase Ameaçada" para "Pouco Preocupante" segundo a IUCN. Alemanha, que alberga 43% da população europeia, França, Espanha, Grã-Bretanha e Suécia lideram essa recuperação. É uma história de sucesso da conservação, mas uma história que continua incompleta. O envenenamento , direto e indireto, mantém-se como uma das principais ameaças à espécie em toda a Europa. É precisamente para quantificar essa mortalidade oculta e combatê-la com dados sólidos que existe o projeto LIFE EUROKITE (LIFE...

Leipzig, iDiv e a reta final do doutoramento

Imagem
Nestes três anos de doutoramento, tive a oportunidade de regressar mais uma vez ao iDiv, em Leipzig - um centro de investigação de referência internacional ligado à Universidade de Halle, à Universidade de Leipzig e a uma rede científica verdadeiramente europeia . Foi uma estadia breve, mas marcante. Estar ali, próximo do meu orientador do CIBIO/UP e em contacto com uma equipa dedicada à conservação da biodiversidade, fez-me sentir de novo o privilégio de poder aprender, investigar e continuar a crescer, mesmo entrando nesta aventura científica numa fase da vida em que muitos julgariam já tardia. Mas não é tarde. Nunca é um erro querer saber mais, pensar melhor e contribuir de forma séria para o conhecimento. Leipzig impressionou-me também como cidade : verde, ampla, jovem, organizada, com transportes públicos exemplares e uma urbanidade tranquila que nos faz acreditar que ainda é possível construir sociedades mais funcionais, mais humanas e mais inteligentes. Vindo da ruralidade raia...

“Pombais Tradicionais de Ribacôa” - das páginas do Livro para a Comunidade

Imagem
Ribacôa , antigo território medieval do nordeste português, constitui hoje uma das paisagens mais singulares da Península Ibérica, marcada por séculos de ocupação humana e por um processo recente de abandono e renaturalização. Neste contexto, os pombais tradicionais emergem como testemunhos materiais de uma economia rural desaparecida , mas também como elementos ativos de leitura ecológica, histórica e cultural do território. O livro "Pombais Tradicionais de Ribacôa" , da minha autoria, propõe uma abordagem multidisciplinar a este património e une fotografia, ensaio e observação de campo ao longo de quase três décadas. Longe de um inventário exaustivo, a obra constrói-se como uma monografia interpretativa que procura compreender o papel dos pombais na paisagem , a sua evolução funcional e o seu potencial futuro num contexto de profundas mudanças socioeconómicas e ecológicas. Num território que concentra uma das maiores densidades de pombais da Europa, e onde cerca de um te...

Turismo rural e sustentabilidade em áreas de montanha

Imagem
Recentemente tive a oportunidade de partilhar algumas reflexões numa entrevista ao Jornal Económico sobre o papel do turismo rural nas regiões de montanha. A conversa partiu da minha experiência pessoal: há mais de trinta anos que vivo e trabalho no território raiano entre Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida, e desde 2004 que a nossa família desenvolve um projeto de turismo rural na Casa da Cisterna . Ao longo deste tempo fui percebendo que o turismo , nestes territórios remotos, raramente surge como solução milagrosa. Mas pode funcionar como uma alavanca importante para dinamizar economias locais frágeis e dispersas. Quando começámos, não existia um plano empresarial sofisticado. Existia sobretudo uma ligação emocional ao lugar e a vontade de recuperar uma casa numa aldeia histórica que nos tocava profundamente. Com o tempo, o projeto foi criando emprego, recebendo visitantes de muitos países e estabelecendo ligações com produtores locais, restaurantes, artesãos e serviços do te...

Pré-Publicação do livro RibaCôa, os Pombais e as Paisagens

Imagem
  Quando percorro o território de RibaCôa, os pombais tradicionais surgem-me como presenças silenciosas numa paisagem em transformação. Muitos estão em colapso, consumidos pela erosão do tempo, mas continuam a marcar vales e planaltos agrícolas como vestígios persistentes de uma ruralidade que desaparece.  Durante séculos foram estruturas essenciais numa economia de autossuficiência, expressão de uma relação íntima entre o homem e a terra. Hoje, cerca de 40% encontram-se em ruína, frequentemente rodeados por matos e jovens bosques que revelam uma mudança profunda no modo como este território é vivido e utilizado. A ecologia da paisagem ajuda-me a compreender este processo. Durante gerações, a matriz dominante foi agrícola, pontuada por pequenas manchas de matos, bosques e construções rurais. Agora a lógica inverteu-se: os matos e as florestas secundárias tornaram-se o pano de fundo de uma paisagem em recomposição.  Neste novo contexto, os pombais - mesmo degradados - as...

Criar Bosques Eternos

Imagem
  Tive o privilégio de participar na 12.ª edição da iniciativa da QUERCUS “Uma Árvore pela Floresta” - uma ação de plantação de cerca de 1200 árvores na Reserva da Faia Brava. Esta atividade realizou-se em parceria com a Eternal Forest Global, projeto do qual a Faia Brava é parceira. Foi um momento simples e profundamente simbólico: mãos na terra, espécies autóctones, comunidade reunida e a continuidade de um trabalho que atravessa décadas. A área onde decorreu a plantação é-me particularmente próxima. É uma das zonas que acompanhamos há mais anos. Ali, em 2005, libertámos os primeiros garranos, sendo pioneiros na utilização do pastoreio naturalizado como ferramenta de gestão ecológica. Desde então, já foram plantadas centenas de árvores, promovido o mosaico agroflorestal, e por ali passaram centenas de voluntários, técnicos e estagiários. É também uma zona atravessada pela GR do Vale do Côa na Faia Brava - um território vivo e em transformação. Voltar a esse lugar e ver a evolução...

A Festa das Amendoeiras Floridas ou a primeira estação do ano

Imagem
Saí esta manhã antes das oito e o sol ainda não tinha chegado ao fundo do vale. A luz entrava oblíqua pelos canhões do Côa, filtrada por uma neblina fria, mas já com intensidade diferente da de dezembro. Não é impressão. É medição empírica. O comprimento do dia aumentou o suficiente para alterar o funcionamento do sistema. A escolha do dia 9 de fevereiro como referência para o arranque da primeira de oito estações do ano solar não é arbitrária nem estética. Assenta na métrica mais simples que existe: o fotoperíodo. Fotoperíodo é o número de horas de luz por dia. Depois do solstício de inverno, a 21 ou 22 de dezembro, os dias começam a crescer de forma contínua. Não é uma ideia abstrata, são minutos reais de luz que se somam diariamente. Esse aumento progressivo interfere diretamente com os ciclos biológicos. O dia 9 de fevereiro marca o ponto médio entre o solstício de inverno e o equinócio da primavera. É por isso que serve de referência, não por convenção, mas por geometria solar. Es...