A Festa das Amendoeiras Floridas ou a primeira estação do ano
Saí esta manhã antes das oito e o sol ainda não tinha chegado ao fundo do vale. A luz entrava oblíqua pelos canhões do Côa, filtrada por uma neblina fria, mas já com intensidade diferente da de dezembro. Não é impressão. É medição empírica. O comprimento do dia aumentou o suficiente para alterar o funcionamento do sistema.
A escolha do dia 9 de fevereiro como referência para o arranque da primeira de oito estações do ano solar não é arbitrária nem estética. Assenta na métrica mais simples que existe: o fotoperíodo. Fotoperíodo é o número de horas de luz por dia. Depois do solstício de inverno, a 21 ou 22 de dezembro, os dias começam a crescer de forma contínua. Não é uma ideia abstrata, são minutos reais de luz que se somam diariamente. Esse aumento progressivo interfere diretamente com os ciclos biológicos. O dia 9 de fevereiro marca o ponto médio entre o solstício de inverno e o equinócio da primavera. É por isso que serve de referência, não por convenção, mas por geometria solar.
Esta primeira fase termina a 20 ou 21 de março, no equinócio da primavera. Chamo-lhe a Primeira Primavera ou a Estação das Prunáceas. Não coincide com a primavera do calendário civil, que começa no equinócio. Também não coincide com a primavera meteorológica, que se inicia a 1 de março. O que começou a 9 de fevereiro é o primeiro ponto intermédio entre o solstício de inverno e o equinócio da primavera, um dos quatro cross quarter days reconhecidos há muito nos países nórdicos e no mundo anglo-saxónico. São quatro datas intermédias que, somadas aos dois solstícios e aos dois equinócios, dividem o ano solar em oito partes praticamente iguais.
A divisão acompanha a variação do fotoperíodo. O aumento ou diminuição da duração do dia regula floração, germinação, reprodução e migração. A luz é o comando principal. Muitas espécies respondem ao comprimento do dia e não apenas à temperatura pontual.
Nesta primeira subestação, o sinal vegetal é claro. Entre 9 de fevereiro e 20 ou 21 de março, nas encostas do Côa, a floração das prunáceas marca o início do ciclo. As amendoeiras espontâneas abrem primeiro, nas encostas bravias, nas arribas, nas faias e nas sebes de antigos campos agrícolas abandonados.
Não falo dos pomares intensivos, mas das árvores dispersas no território, as que nasceram por conta própria e que florescem sempre no momento certo, sem interferência. São o instrumento de medição mais honesto que conheço. Logo depois surgem as ginjeiras bravas, o Prunus mahaleb, os abrunheiros, o Prunus spinosa, e os pilriteiros, o Crataegus monogyna. O branco começa a pontuar os campos antes de a folha dominar a paisagem.
Estas espécies partilham uma estratégia comum. Florescem antes de emitir folha. A energia acumulada é dirigida à reprodução antes da fotossíntese plena. Não respondem a um dia isolado de calor, mas ao aumento consistente do comprimento do dia. O ponto intermédio entre o solstício e o equinócio funciona como limiar. A partir daqui o balanço energético anual altera-se de forma sustentada.
Se aceitarmos esta divisão em oito subestações, a Estação das Prunáceas decorre até ao equinócio. Depois inicia-se a segunda fase, associada ao crescimento rápido das herbáceas e à expansão foliar generalizada. No início de maio começa a terceira, ligada à seiva alta e à consolidação estrutural da vegetação. A 21 de junho, no solstício de verão, entra-se na quarta fase, o dia mais longo do ano. No início de agosto inicia-se a quinta subestação, ligada à maturação generalizada dos frutos e ao pico da secura mediterrânica. A 22 ou 23 de setembro, no equinócio de outono, começa a sexta fase. No início de novembro surge a sétima, marcada pela queda dominante das folhas. Finalmente, a 21 ou 22 de dezembro, o solstício de inverno encerra o ciclo com a oitava fase, a de menor duração de luz diária.
Este modelo não substitui os calendários oficiais. Acrescenta uma leitura funcional do território. Em vez de quatro blocos amplos, temos oito momentos que permitem interpretar com maior precisão os sinais do campo. A floração, a germinação, a instalação de territórios por aves e a disponibilidade de pastagem enquadram-se melhor neste esquema.
A Estação das Prunáceas abriu o ciclo. As amendoeiras marcaram o início. Resta observar, registar e alinhar o nosso calendário com o ritmo biológico que já está em curso.
Referências: Meteo Trás-os-Montes & Flora On
Comentários
Enviar um comentário