Milhafre-real: veneno, vigilância e a tarde mais triste
O milhafre-real (Milvus milvus) é uma das aves mais emblemáticas da campina europeia. Espécie endémica do Paleárctico Ocidental, nidifica desde a Península Ibérica até à Europa de Leste e ao sul da Suécia. A população mundial estima-se entre 60.000 a 70.000 casais, dos quais 95% nidificam na Europa. Depois de um período preocupante de declínio no final do século XX, a espécie recuperou mais de 30% na última década e mais de 80% nas últimas três gerações, tendo passado do estatuto de "Quase Ameaçada" para "Pouco Preocupante" segundo a IUCN. Alemanha, que alberga 43% da população europeia, França, Espanha, Grã-Bretanha e Suécia lideram essa recuperação. É uma história de sucesso da conservação, mas uma história que continua incompleta.
O envenenamento, direto e indireto, mantém-se como uma das principais ameaças à espécie em toda a Europa. É precisamente para quantificar essa mortalidade oculta e combatê-la com dados sólidos que existe o projeto LIFE EUROKITE (LIFE18 NAT/AT/000048), um dos maiores programas de telemetria de rapinas alguma vez desenvolvidos à escala europeia. Entre 2013 e 2024, foram marcadas 3.554 aves de sete espécies com emissores GPS solares em 19 países. Dos 1.623 indivíduos entretanto mortos, 320 foram vítimas comprovadas de atividades ilegais em 24 países, sendo o envenenamento responsável por 74% desses casos, com destaque para o carbofurano, proibido na UE desde 2008. O dado mais perturbador: apenas 8 desses 320 casos resultaram em condenação, o que representa uma taxa de impunidade de 97,5%. O mais recente relatório do projeto estima ainda que, entre 2020 e 2024, cerca de 46.180 milhafres-reais poderão ter morrido por perseguição ilegal na Europa. Não é uma contagem direta de cadáveres, mas uma extrapolação populacional baseada nas taxas de perseguição detetadas nas aves marcadas, que o próprio relatório assume com as devidas cautelas metodológicas. Ainda assim, a dimensão real do problema torna-se impossível de ignorar.
Tenho uma relação longa com esta ave e com este problema. Em meados dos anos 2010, tive o privilégio de estar entre os pioneiros do arranque do programa de seguimento de populações invernantes de milhafre-real no norte de Portugal, no âmbito do ICNF, inspirado pelos colegas austríacos e alemães da Europa Central que já trabalhavam nesta direção. Era uma novidade metodológica e uma necessidade real: perceber onde dormiam, quantos eram, como se moviam pelas paisagens raianas durante o inverno. O milhafre-real voltou a ter presença no mapa da conservação nacional. Continuei depois como voluntário, mantendo esse acompanhamento como parte do compromisso de quem não consegue desligar-se do território que estuda.
No início de janeiro deste ano, esse compromisso trouxe-me uma das tardes mais tristes de décadas de trabalho na conservação. Com um colega, no âmbito do programa de monitorização, encontrámos no campo, algures nos arredores de Almeida, 12 milhafres-reais mortos. Doze. Era fim de tarde, uma meia-escuridão, o frio cortante da raia e aqueles 12 vultos espalhados pelo chão. Uma das minhas aves preferidas, uma ave que reconheço desde longe pelo voo inconfundível, pela cauda de forcado, pela elegância lenta sobre as campinas, repetida doze vezes imóvel. Há momentos em que a realidade é tão dura que ultrapassa a objetividade. As lágrimas vieram, e por instantes tive a sensação de estar suspenso sobre algo irreal. Depois procurei forças e fiz o que devia ser feito.
Alertei de imediato as autoridades. O ICNF e o SEPNA reagiram com prontidão, deslocaram-se ao local e deram seguimento ao processo de investigação, que se encontra em curso e sobre o qual já fui ouvido formalmente. Faço votos que o mesmo atinja resultados positivos em termos da conservação e da justiça.
Houve, como era previsível, aproveitamento mediático e institucional em torno deste episódio. Cada um fez as suas contas. Não é isso que me importa comentar. O que importa dizer é que a conservação da natureza no interior de Portugal não se faz com protagonismos avulsos nem com lógicas de território organizacional. Faz-se com redes, com partilha de dados, com presença no terreno e com a humildade de perceber que nenhuma organização, por mais visível que seja, resolve sozinha o que é um problema estrutural e transfronteiriço. Temos nesta região atores sérios, ONGs com trabalho real, técnicos competentes e cidadãos comprometidos. O que nos falta, muitas vezes, não são recursos nem conhecimento. É a capacidade de trabalhar juntos sem que os egos ocupem o espaço que devia ser da natureza.
Escrevo esta nota para divulgar os últimos resultados do LIFE EUROKITE, mas também para salvaguardar os mais de 200 exemplares "germânicos" que, na altura, invernavam nos mais de dez dormitórios do distrito da Guarda e que evito identificar publicamente para não interferir no processo de investigação. Esses milhafres estão agora de regresso aos seus núcleos de nidificação na Europa Central. Quero acreditar que regressaram sãos e salvos.
Leitura recomendada e referências:
LIFE EUROKITE Crime Report, Part 13 (2026). Illegal persecution of tagged red kites and other raptor species in Europe. LIFE18 NAT/AT/000048. Disponível em: LIFE EUROKITE_Crime_Report_Part 13_Netherlands_20260224.pdf
ICNF e GNR investigam morte de 17 milhafres-reais em Almeida. Público, 16 jan. 2026. Disponível em: ICNF e GNR investigam morte de 17 milhafres-reais em Almeida | Conservação da natureza | PÚBLICO
LIFE EUROKITE Crime Report, notícia (2026). Disponível em: LIFE EUROKITE Crime Report - Life-Eurokite EN
Garcia-Macía, J., Vidal-Mateo, J., De La Puente, J., Bermejo A., Raab, R., Urios, V. (2021). Seasonal differences in migration strategies of Red Kites (Milvus milvus) wintering in Spain. Journal of Ornithology, Springer.
LIFE EUROKITE (2021). Results of the 1st LIFE EUROKITE Winter Count of 267 selected regularly counted Red Kite roosting sites in whole Europe; 08.01.–10.01.2021. Impact monitoring of the LIFE EUROKITE Project. Relatório não publicado.
Raab, R., Literák, I., Schütz, C., Spakovszky, P., Steindl, J., Schönemann, N., Tarjányi, S.G., Peske, L., Makon, K., Mráz, J., Maderic, B., Pecenak, V., Matusik, H. & Schulze, C.H. (2017). GPS-basierte Telemetriestudien an mitteleuropäischen Rotmilanen Milvus milvus. Ornithologische Mitteilungen 69(7/8): 245–260.
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