Projetos
Ao longo do meu percurso profissional, o trabalho desenvolvido teve sempre um fio condutor claro: criar, proteger e recuperar espaços onde a natureza possa existir de forma funcional, duradoura e integrada no território. Essa ideia atravessa contextos distintos - conservação privada, gestão pública, investigação científica e ação no terreno - e traduz-se numa visão transversal sobre a forma como pensamos e cuidamos da Natureza em Portugal.
Faia Brava
O projeto tem origem no final da década de 1990, com a criação da Associação Transumância e Natureza (ATN), da qual fui sócio fundador, nascida da convicção de que a iniciativa cidadã, aliada ao conhecimento científico e ao compromisso territorial, pode desempenhar um papel decisivo na conservação da natureza. Desde o início, estive diretamente envolvido na conceção estratégica, aquisição de terrenos, definição do modelo de gestão e articulação com comunidades locais, entidades públicas, universidades e parceiros internacionais.
A Faia Brava desenvolveu-se a partir da aquisição progressiva de propriedades-chave ao longo do vale do rio Côa, permitindo a criação de um território contínuo dedicado à conservação. A gestão da reserva assenta nos princípios do rewilding, privilegiando a autonomia dos processos ecológicos, a redução de perturbações humanas e a reintrodução de grandes herbívoros autóctones - como os cavalos Garranos e o gado Maronês - enquanto ferramentas naturais de gestão da paisagem, biodiversidade e risco de incêndio.
Ao longo de mais de duas décadas, a Faia Brava evoluiu de um pequeno projeto experimental para um referencial nacional e europeu em conservação privada. Atualmente, gere diretamente mais de mil hectares e influencia uma área ainda maior através de modelos colaborativos com proprietários vizinhos. Tornou-se um espaço ativo de investigação científica, formação académica, educação ambiental e turismo de natureza, acolhendo investigadores, estudantes e visitantes de vários países.
Para além do impacto ecológico - recuperação de habitats, regresso de espécies desaparecidas, aumento da resiliência da paisagem - a Faia Brava demonstrou que a conservação pode ser um motor de desenvolvimento rural, gerando emprego qualificado, investimento local e novas narrativas para territórios do interior marcados pelo abandono.
Hoje, a Faia Brava é mais do que uma reserva natural: é um laboratório vivo de regeneração ecológica, um exemplo de gestão privada ao serviço do interesse público e uma prova de que é possível criar espaços para a natureza com rigor científico, envolvimento comunitário e visão de longo prazo.
Parque Natural do Douro Internacional
O Parque Natural do Douro Internacional é uma das maiores áreas protegidas de Portugal e um dos mais relevantes santuários naturais da Península Ibérica. A sua criação representou um passo decisivo na proteção das arribas do Douro, uma paisagem de exceção marcada por uma geologia singular, elevada biodiversidade e pela presença de comunidades humanas profundamente ligadas ao território.
Entre 1996 e 1998, estive diretamente envolvido no processo de criação deste Parque Natural, contribuindo para a sua fundamentação técnico-científica, definição territorial e consolidação institucional. Este trabalho teve origem nos estudos realizados no âmbito do meu estágio em Biologia, dedicados às aves rupícolas do Alto Douro, em particular ao abutre-do-Egipto, cujos dados evidenciaram a urgência de proteger este sistema ecológico de escala ibérica.
A proposta de classificação do Parque assentou numa abordagem integrada, combinando o conhecimento científico adquirido com um planeamento territorial e com o diálogo institucional com municípios, atores locais, comunicação social e autoridades espanholas - lançando as bases de uma cooperação transfronteiriça duradoura com o Parque Natural de Arribes del Duero.
O processo foi amplamente participado e reconhecido pela sua consistência técnica e eficiência administrativa. A proposta foi aprovada pelas assembleias municipais envolvidas e, em dezembro de 1997, validada em Conselho de Ministros, culminando na publicação do diploma legal em 1998 e na inauguração pública do parque nesse mesmo ano.
Para além da proteção ecológica - salvaguarda de habitats, conservação de espécies ameaçadas e manutenção dos processos naturais - a criação do Parque Natural do Douro Internacional afirmou-se como um instrumento de ordenamento do território e de desenvolvimento regional. A classificação permitiu valorizar atividades tradicionais, promover o turismo de natureza e consolidar uma visão de longo prazo assente nos serviços dos ecossistemas e numa economia verde adaptada a territórios de baixa densidade.
Ao longo das décadas seguintes, mantive uma ligação direta à gestão do Parque enquanto técnico do Instituto da Conservação da Natureza, integrando a Comissão Diretiva do PNDI e desenvolvendo trabalho nas áreas da gestão florestal, prevenção de incêndios, educação ambiental, turismo de natureza e cooperação transfronteiriça. Este percurso faz do Parque Natural do Douro Internacional não apenas uma área protegida, mas também um exemplo concreto de como ciência aplicada, serviço público e compromisso territorial podem convergir para criar políticas de conservação com impacto duradouro.
Casa da Cisterna
Desde a sua origem, a Casa da Cisterna foi pensada como um projeto-piloto de turismo de natureza, baseado na pequena escala, no tempo lento e na autenticidade da experiência. Observação de aves, trilhos pedestres, paisagem aberta, silêncio e céu noturno estruturam uma proposta dirigida a visitantes atentos e respeitadores, que procuram mais do que alojamento: procuram relação com o território.
O projeto assenta na reabilitação cuidada do património edificado, respeitando a arquitetura vernacular e os materiais tradicionais. A cisterna, elemento central da casa, simboliza a relação ancestral entre água, comunidade e paisagem, traduzindo uma abordagem à sustentabilidade fundada na memória, na resiliência e no uso responsável dos recursos.
Ao longo de duas décadas de operação contínua, a Casa da Cisterna confirmou que o turismo rural de natureza pode funcionar como uma economia silenciosa, de baixo impacto ambiental e elevado retorno cultural. Pequenas unidades, quando bem integradas, recuperam edifícios, mantêm aldeias habitadas, prolongam estadias e geram rendimento local sem descaracterizar o território.
Mais do que um alojamento turístico, a Casa da Cisterna é uma demonstração prática de uma visão de desenvolvimento rural onde a natureza é um valor central, a identidade é preservada e a sustentabilidade deixa de ser um conceito abstrato para se tornar prática quotidiana. Um projeto vivido, testado no tempo e ancorado numa relação profunda com o lugar.
Burros Lanudos
Com a mecanização crescente da agricultura e a consequente redução da sua utilidade económica, o efetivo da raça sofreu um forte declínio, deixando muitos destes animais confinados à memória e à companhia de gerações mais velhas. Foi esse risco real de desaparecimento que me motivou a dedicar tempo, esforço e reflexão à preservação dos burros mirandeses. Não apenas como curiosidade rural, mas principalmente como um património biológico e cultural que testemunha séculos de adaptação ao ambiente rigoroso do Nordeste Transmontano e às práticas tradicionais associadas à vida no campo.
Ao longo deste percurso, procurei promover a criação, reconhecimento e valorização da raça, articulando-me com outros criadores, associações, iniciativas locais e programas de conservação que têm mantido viva a tradição de seleção e reprodução do Burro de Miranda. A criação de estruturas associativas e a participação em iniciativas que valorizam geneticamente o efetivo têm sido fundamentais para reforçar a população reprodutora e manter os traços distintivos da raça, promovendo uma abordagem responsável à sua conservação e utilização sustentável nas comunidades rurais.
A defesa do Burro de Miranda nunca foi apenas uma questão de preservação animal, mas de manter vivas práticas, saberes e relações entre humanos, lugares e natureza. Estes burros desempenharam um papel central na vida das pessoas e na construção da identidade da Terra de Miranda. Preservá-los é preservar também formas de viver, de trabalhar o território e de transmitir memórias e tradições que fazem parte inseparável da paisagem cultural portuguesa.
Hoje, vejo este meu compromisso como parte de um esforço mais vasto para afirmar que a conservação da biodiversidade autóctone - incluindo raças domésticas como o Burro de Miranda - é uma dimensão essencial de qualquer projeto de desenvolvimento rural sustentável, integrando património genético, cultura e futuro num diálogo vivo entre passado e presente.





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