“Pombais Tradicionais de Ribacôa” - das páginas do Livro para a Comunidade
Ribacôa, antigo território medieval do nordeste português, constitui hoje uma das paisagens mais singulares da Península Ibérica, marcada por séculos de ocupação humana e por um processo recente de abandono e renaturalização. Neste contexto, os pombais tradicionais emergem como testemunhos materiais de uma economia rural desaparecida, mas também como elementos ativos de leitura ecológica, histórica e cultural do território.
O livro "Pombais Tradicionais de Ribacôa", da minha autoria, propõe uma abordagem multidisciplinar a este património e une fotografia, ensaio e observação de campo ao longo de quase três décadas. Longe de um inventário exaustivo, a obra constrói-se como uma monografia interpretativa que procura compreender o papel dos pombais na paisagem, a sua evolução funcional e o seu potencial futuro num contexto de profundas mudanças socioeconómicas e ecológicas.
Num território que concentra uma das maiores densidades de pombais da Europa, e onde cerca de um terço destas estruturas se localiza, torna-se evidente a necessidade de um novo olhar coletivo. A maioria destes edifícios encontra-se hoje obsoleta do ponto de vista produtivo, mas mantêm um valor simbólico, arquitetónico e ecológico que importa reconhecer, discutir e, sempre que possível, valorizar. Esta questão abre, também, uma reflexão mais ampla: o que fazer aos elementos obsoletos da paisagem rural quando um ciclo socioeconómico termina e outro ainda está a formar-se? Como ler, avaliar e integrar estes testemunhos materiais num novo tempo de transição territorial, social e ecológica?
É neste quadro que o livro se articula com um conjunto de eventos públicos a realizar nas sedes de concelho de Mêda, Vila Nova de Foz Côa, Almeida, Pinhel e Figueira de Castelo Rodrigo, bem como na freguesia de Cidadelhe. Estes encontros pretendem promover um debate aberto e plural, envolvendo municípios, entidades de gestão territorial, associações, investigadores, proprietários e comunidades locais, mas também artistas, fotógrafos, especialistas em património rural e etnografia, pensadores da paisagem e agentes económicos ligados ao território. A ideia é que estes encontros possam evoluir para um ciclo de debates e tertúlias sobre as novas imagens de avaliação da paisagem, do território e da sociedade neste alvorecer de milénio, sempre a partir de um universo temático muito concreto: Ruralidade, Naturalidade e SocioEcologia.
Neste processo de divulgação e projeção pública, considero muito importante destacar o papel do Daniel Cortesão Gil, enquanto parceiro na estruturação da comunicação, mediação cultural e dinamização do ciclo de apresentações, conversas e tertúlias em torno do livro. A sua experiência na curadoria de processos culturais e na construção de linguagens de divulgação pública poderá ser muito relevante para dar coerência, visibilidade e qualidade a esta iniciativa.
Ao mesmo tempo, importa sublinhar que este projeto assenta também num forte investimento pessoal, intelectual e material da minha parte, realizado fora de qualquer grande estrutura institucional. A Casa da Cisterna, em castelo Rodrigo, surge por isso como palco ideal para o lançamento central da obra, não apenas pela sua localização no coração de Ribacôa, mas também por representar um lugar de hospitalidade, pensamento, paisagem e construção de projetos culturais ligados ao território. A Casa da Cisterna poderá acolher um momento âncora de apresentação, conversa, projeção de imagens, encontro com autores e convidados e eventual sessão de autógrafos, afirmando-se como espaço de referência para esta reflexão pública sobre os pombais, a paisagem e o futuro da região.
No centro desta iniciativa está uma dimensão prática, orientada para a construção de propostas concretas e partilhadas:
– criação de uma plataforma digital e site dedicado aos pombais de Ribacôa, reunindo informação, cartografia, fotografia e conteúdos interpretativos
– realização de sessões públicas, debates e tertúlias em diferentes localidades, promovendo o diálogo entre ciência, cultura e comunidade
– envolvimento de especialistas e agentes do território nas áreas do património, etnografia, arquitetura, fotografia, arte e desenvolvimento rural
– identificação e valorização de núcleos de pombais com potencial para recuperação e leitura integrada na paisagem
– criação progressiva de pequenas unidades ou centros de interpretação local dos pombais, articulados entre si numa futura rota territorial
Mais do que apresentar conclusões fechadas, esta iniciativa procura criar um espaço de reflexão partilhada sobre o futuro dos pombais, explorando possibilidades como a classificação de conjuntos representativos, a recuperação de estruturas emblemáticas e a sua integração em estratégias de valorização territorial.
O livro assume também uma dimensão conceptual mais ampla, ao enquadrar os pombais na dinâmica atual de transformação da paisagem do Oeste Ibérico. Entre abandono agrícola, regeneração natural e processos de rewilding, estas estruturas deixam de ser apenas vestígios do passado para se tornarem elementos-chave na leitura de um novo ciclo ecológico e cultural. Neste sentido importa, também, colocar o rewilding em discussão pública, não como mera palavra de moda, mas como processo real, já visível na paisagem e que nos obriga a repensar o destino dos legados materiais do mundo rural, as suas funções perdidas e as suas novas possibilidades de significado.
Esta proposta não impõe soluções, nem define modelos rígidos. Pelo contrário, apresenta-se como um ponto de partida. Um convite a olhar, a discutir e a decidir em conjunto. Num tempo em que o mundo rural enfrenta desafios profundos, os pombais de Ribacôa podem assumir-se como símbolos de continuidade e reinvenção, ligando memória e futuro numa paisagem em aberto.


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