Pré-Publicação do livro RibaCôa, os Pombais e as Paisagens
Quando percorro o território de RibaCôa, os pombais tradicionais surgem-me como presenças silenciosas numa paisagem em transformação. Muitos estão em colapso, consumidos pela erosão do tempo, mas continuam a marcar vales e planaltos agrícolas como vestígios persistentes de uma ruralidade que desaparece.
Durante séculos foram estruturas essenciais numa economia de autossuficiência, expressão de uma relação íntima entre o homem e a terra. Hoje, cerca de 40% encontram-se em ruína, frequentemente rodeados por matos e jovens bosques que revelam uma mudança profunda no modo como este território é vivido e utilizado.
A ecologia da paisagem ajuda-me a compreender este processo. Durante gerações, a matriz dominante foi agrícola, pontuada por pequenas manchas de matos, bosques e construções rurais. Agora a lógica inverteu-se: os matos e as florestas secundárias tornaram-se o pano de fundo de uma paisagem em recomposição.
Neste novo contexto, os pombais - mesmo degradados - assumem funções ecológicas inesperadas. As cavidades e zonas sombrias que antes abrigavam pombos servem hoje de refúgio a corujas, morcegos, pequenos carnívoros, répteis e aves rupícolas. A ruína altera a função original, mas abre espaço a novas oportunidades biológicas.
Para mim, o desaparecimento da função agrícola não significa perda de valor. Estes edifícios mantêm uma força estética e simbólica extraordinária. São pontos de referência na paisagem, âncoras visuais que nos lembram um modo de vida que já não existe. Em vez de os olhar apenas como estruturas inúteis, prefiro vê-los como testemunhos de continuidade entre o humano e o natural. A sua presença convida-nos a uma leitura diferente da paisagem: menos centrada na utilidade imediata e mais atenta à permanência e ao significado.
Em RibaCôa - tal como em grande parte do interior ibérico - o envelhecimento demográfico, a fragmentação fundiária e o abandono agrícola estão a desencadear um processo de renaturalização espontânea que já cobre extensas áreas do território. A vegetação avança, a fauna regressa e a paisagem reencontra dinâmicas próprias. Nos vales do Côa e do Águeda vejo bosques jovens a ocupar antigas searas, enquanto os pombais emergem como ruínas integradas num novo ciclo de vida. Este processo, que muitos designam por passive rewilding, é simultaneamente ecológico e cultural.
A ruína, longe de ser apenas sinal de decadência, pode tornar-se um símbolo identitário desta nova ruralidade. Nem tudo deve ser restaurado, mas também não devemos deixar desaparecer tudo. Alguns pombais merecem recuperação e nova função. Outros devem ser deixados ao curso do tempo, integrando-se naturalmente na paisagem. Esta atitude implica uma ética do cuidado, próxima da ideia de deep ecology de Arne Naess: reconhecer que o valor das coisas não depende apenas do uso que lhes damos.
É desta reflexão que nasce o livro “RibaCôa, os Pombais e as Paisagens”. Um olhar sobre um território onde o abandono não é apenas perda, mas também oportunidade de regeneração ecológica e cultural. Nas ruínas, no silêncio e na emoção destas paisagens em transição, encontro sinais de continuidade - e talvez também pistas para imaginarmos uma relação mais madura com o tempo, a terra e o futuro do mundo rural.

Grandes imagens! dá-nos notícia da publicação! Abraço.
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