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A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Paisagens em Transição: Fim de Um Ciclo?!

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  Durante mais de cinco mil anos, a agricultura de subsistência moldou a paisagem do interior ibérico . O cereal extensivo de sequeiro, a pastorícia de percurso, as hortas familiares e as culturas permanentes garantiam autossuficiência alimentar e ocupação contínua do território. Este sistema atingiu o seu máximo demográfico e produtivo nos anos 1950. A partir da década de 1960, o ciclo começou a desmoronar. Na Raia do nordeste de Portugal - como em muitas outras zonas do interior ibérico - as métricas descrevem bem este processo. Entre 1950 e 2020, a área de cereal encolheu 97% , a população residente caiu 72% e os efetivos de ovinos e caprinos diminuíram 50% . Não foi crise pontual. Foi mudança estrutural irreversível. Este colapso não resultou de falha moral ou cultural. Resultou da conjugação entre globalização económica, mecanização agrícola, reformas da PAC, êxodo rural e alterações climáticas. A agricultura de subsistência tornou-se economicamente inviável. Os solos pobres...

Montanhas Ibéricas, Escarpas e Abutres

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  As montanhas do Oeste Ibérico são grandes corredores naturais da fauna.  Durante milénios de perseguição humana, por serem remotas, escarpadas e frias , as montanhas tornaram-se refúgios ecológicos onde a grande fauna sobreviveu .  Nos dias que correm, por muitas autoestradas, comboios de alta velocidade, aviões e satélites de órbitas estacionárias, mantêm-se ou até se valorizam. Estes montes e “arribas” são espaços silvestres. Permanecem terras ermas para o homem e são palco privilegiado da renaturalização . Estudar os abutres, como espécies bravias do topo da pirâmide trófica, é contributo válido, prático e imediato de um grupo de aves que se deixa ver e 'medir' e que faz enorme serviço ao ecossistema. É sempre importante assinalar que temos, de novo, as 4 espécies ibéricas reunidas: Grifos (às centenas), Abutres-negros e Britangos (às dezenas) e Quebra-ossos (ocasionais)… agora só temos que as saber receber e  acarinhar. Não voltará a haver céus azuis vazios...

Conectividade Ecológica nas Montanhas

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  Entre o Arco Cantábrico e as montanhas galaico-lusitanas estende-se um corredor ecológico funcional. Aqui decorrem processos de conectividade de ecossistemas, fauna e flora.   A expansão dos bosques nativos após o abandono agrícola,  logo no pós-segunda guerra mundial,  poderá restaurar corredores que prolongam a cadeia montanhosa paleártica. É um território que poderá voltar a ter conectividade ecológica real.  Todo o percurso das últimas décadas é o de um território que retoma os seus processos de funcionalidade ecológica , restaura o ecossistema e os ciclos de nutrientes e recupera muitas das espécie da fauna e flora. Percorrer a crista das montanhas e descer à profundeza dos rios é sentir como toda a natureza flui desde há milénios , ajudar a compreender esses processos é fundamental para nos guiar nas decisões do dia-a-dia e no desenho de estratégias para o planeamento futuro .  Desenvolvimento regional, ordenamento do território, gestão de áreas pr...

Rio Douro, a Mais Bonita História Natural

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O Douro escavou, durante milhões de anos,  o grande canhão da Península Ibérica .  Escarpas que, em certos troços, se elevam a pique mais de 400 metro. Arribas monumentais, que expressam uma história natural inscrita no tempo profundo.  Com 897 km, o Douro é a espinha dorsal do Oeste Ibérico. Separa e liga domínios biogeográficos. E criou importantes refúgios de biodiversidade , numa paisagem em transição que, neste últimos milénios ou séculos, tem sido um cenário de avanços e recuos de atividades rurais e de renaturalização.  O nosso Douro, padre Duero, é protagonista maior desta História Natural Ibérica . 

Oeste Ibérico

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  O Oeste Ibérico é um enclave ecológico real identificado por Carlos Sánchez.  O extremo ocidental de um continente é sistema contínuo de paisagem, com a mesma tipologia de clima, geológica e orografia, e com as mesmas vegetação, flora e fauna. Entre Castela e Leão e o norte de Portugal, o Rio Douro assume-se como o "grande Canyon ibérico", uma linha condutora entre montanhas e mosaicos nativos de bosques e montado/dehesa, incluindo uma das maiores extensões de floresta de Quercus da Península Ibérica.  Artificiais nos critérios administrativos e geopolíticos, este enorme território tem uma identidade própria e permite uma narrativa compreensível e bela sobre a evolução da paisagem e a compreensão da sua funcionalidade ecológica. Compreendê-lo como um todo é condição para o tornar funcional.

Ribacôa: Comarca Natural

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  É sempre bom situarmo-nos geograficamente, sendo que a "Geografia cruza território, natureza e sociedade" . Assim posso dizer que o interior, onde vivo, corresponde ao território de Ribacôa, a faixa entre o Águeda e o Côa a sul do Douro.  Por sua vez, abrange parte da grande comarca natural das Arribas do Douro, enquadra-se no nordeste de Portugal e na Raia luso-castelhana. Ambos se integram num território biogeográfico mais vasto : as montanhas do Oeste Ibérico.  É aqui, entre serras, arribas, rios e bosques em regeneração, que escolhi trabalhar pela conservação da natureza. Relatar aspectos funcionais deste ecossistema, as suas variações temporais e espaciais, é parte do que tentarei descrever nos textos e imagens deste site, partilhando aquilo que me alimentou uma paixão pela natureza ao longo da vida.

Paixão pela Natureza no Interior de Portugal

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  O silêncio do planalto granítico que se estende até mergulhar nas arribas e o rio que ruge lá em baixo. Dezenas de grandes aves de rapina que se lançam das fragas e sobem em círculos. Bosques e lameiros repletos de vida, com inúmeros passarinhos a cantar entre ramos e silvados . A possibilidade de caminhar livre por campos e viajar por estradas retilíneas, parar e agarrar um punhado de terra com a mão, sentir o seu aroma, ou ver como uma tormenta de nuvens negras se forma sobre um céu azul em pleno agosto. Foram esses momentos que me marcaram como jovem naturalista e aprendiz de biólogo, atrás de uma paixão por bichos que vinha de longe quando cheguei a Ribacôa em 1993. Foi da Marofa, a 975 metros de altitude, onde descobri que estava no centro do maior anfiteatro orográfico do oeste ibérico . Milhares de quilómetros quadrados da bacia do Douro rodeados de montanhas, muitas delas longínquas - mas todas elas visíveis: Sanábria, Montesinho , Bornes e Rebordo a norte, o Marão e o A...

Burros no Linha da Frente da RTP

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A entrevista que dei ao programa Linha da Frente , da RTP, no episódio “Vozes de Burro chegam ao Coração” , foi acima de tudo um momento de verdade. Falei como criador de Burros de Miranda, mas também como biólogo, alguém que vive diariamente entre a ciência e o território. Partilhei a minha relação com esta raça autóctone, não como memória do passado, mas como presença viva, com futuro e com um papel claro na conservação da paisagem e da identidade rural. Criar Burros de Miranda é, para mim, um ato de resistência consciente . É proteger genética única, valorizar saberes tradicionais e demonstrar que sistemas de baixa intensidade podem gerar valor económico, ecológico e cultural. No programa, procurei mostrar que estes animais não são apenas símbolos afetivos: são aliados na gestão sustentável do território , no turismo de natureza e na manutenção de ecossistemas funcionais. Participar neste episódio reforçou uma convicção antiga: a conservação não se faz à distância. Faz-se com envo...

Parque Nacional para o Côa

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  A proposta de criar o primeiro Parque Nacional Raiano nasce de uma visão ambiciosa: unir a Estrela, a Malcata e o Douro Internacional num grande corredor ecológico que devolve continuidade à Paisagem e força à Vida Selvagem. No Vale do Côa - território de património natural, cultural e arqueológico únicos - esta ligação transforma-se numa oportunidade histórica de proteger Ecossistemas , restaurar Habitats e reforçar o papel de Portugal na Conservação da Natureza. Este Parque não será apenas Natureza. Será Ciência Aplicada no terreno. Será Desenvolvimento Sustentável para as Comunidades locais , Turismo de qualidade, Economia verde e novos caminhos para fixar Pessoas no interior. Um Parque Nacional para o Côa é uma forma de pensar o futuro : mais resiliente, mais conectado e mais próspero para todos. Queremos abrir esta conversa ao país - e convido todos a imaginar comigo o próximo grande marco da Conservação em Portugal.

Sugestão de Leitura: O Estado do Campo

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Nestes dias invernais dei por mim a reler algumas passagens de O Estado do Campo - um livro que lancei em setembro de 2022.  Uma visão introspetiva sobre o mundo rural no nordeste do País. Nele apresentei uma seleção de retratos sobre a paisagem e o território, que seguem uma linha comum, um singular sentimento sobre o interior, ora geográfico ora emocional, uma nostalgia na contemplação do campo, silencioso e inerte, que se projeta na angústia de estar perto da última fronteira, algures na linha do horizonte da meseta longínqua. A inspiração para este livro veio dessa inconstância de penetrar nesse espaço incógnito, indecifrável, uma espécie de excursão incerta num paraíso perdido, como um passeio no campo perante uma tempestade que aí vem. “Trago aqui o que retive ao longo dos anos, nas inúmeras viagens por estes planaltos, montes e vales … a olhar pássaros, árvores, escarpas rochosas, um céu carregado de nuvens … a sentir esse campo na alma.” Fica a sugestão de leitura.