Paisagens em Transição: Fim de Um Ciclo?!

 

Durante mais de cinco mil anos, a agricultura de subsistência moldou a paisagem do interior ibérico.

O cereal extensivo de sequeiro, a pastorícia de percurso, as hortas familiares e as culturas permanentes garantiam autossuficiência alimentar e ocupação contínua do território. Este sistema atingiu o seu máximo demográfico e produtivo nos anos 1950. A partir da década de 1960, o ciclo começou a desmoronar.

Na Raia do nordeste de Portugal - como em muitas outras zonas do interior ibérico - as métricas descrevem bem este processo. Entre 1950 e 2020, a área de cereal encolheu 97%, a população residente caiu 72% e os efetivos de ovinos e caprinos diminuíram 50%. Não foi crise pontual. Foi mudança estrutural irreversível.

Este colapso não resultou de falha moral ou cultural. Resultou da conjugação entre globalização económica, mecanização agrícola, reformas da PAC, êxodo rural e alterações climáticas. A agricultura de subsistência tornou-se economicamente inviável. Os solos pobres e a orografia acidentada não permitiram competir com sistemas intensivos noutras regiões. A emigração esvaziou aldeias. O ciclo milenar terminou porque as condições que o sustentavam deixaram de existir.

O novo desafio para as terras de baixa densidade assenta em processos ecológicos funcionais, gestão adaptativa da água e do solo, menor risco climático. Sem nostalgia, com técnica e propriedade clara, constrói-se paisagem resiliente. A transição está em curso.



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