Turismo rural e sustentabilidade em áreas de montanha
Recentemente tive a oportunidade de partilhar algumas reflexões numa entrevista ao Jornal Económico sobre o papel do turismo rural nas regiões de montanha. A conversa partiu da minha experiência pessoal: há mais de trinta anos que vivo e trabalho no território raiano entre Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida, e desde 2004 que a nossa família desenvolve um projeto de turismo rural na Casa da Cisterna. Ao longo deste tempo fui percebendo que o turismo, nestes territórios remotos, raramente surge como solução milagrosa. Mas pode funcionar como uma alavanca importante para dinamizar economias locais frágeis e dispersas.
Quando começámos, não existia um plano empresarial sofisticado. Existia sobretudo uma ligação emocional ao lugar e a vontade de recuperar uma casa numa aldeia histórica que nos tocava profundamente. Com o tempo, o projeto foi criando emprego, recebendo visitantes de muitos países e estabelecendo ligações com produtores locais, restaurantes, artesãos e serviços do território. Não se trata de grandes números. Trata-se de uma rede lenta, mas persistente, onde vinho, azeite, queijo ou amêndoa passam de produtos agrícolas a experiências culturais para quem nos visita. Esse efeito multiplicador pode parecer discreto, mas em economias frágeis tem um peso real.
Outra conclusão que retiro destes anos é que a sustentabilidade não pode ser um luxo, nem um slogan. Num território de montanha, com recursos limitados e um património natural extraordinário, ela coincide quase sempre com boa gestão: poupar água, cuidar da paisagem, integrar a arquitetura, valorizar os produtos locais. Quem viaja para estes lugares procura precisamente autenticidade, silêncio, natureza e identidade. Se esses valores se perderem, perde-se também o próprio produto turístico.
Talvez por isso prefira falar menos em “desertificação” ou “periferia” e mais em interior rural, planalto raiano ou montanha. As palavras moldam a forma como vemos o território. Ao longo de três décadas aprendi que a mudança começa quase sempre com pessoas concretas que decidem ficar, regressar ou investir num lugar. O turismo pode ser apenas o primeiro passo dessa dinâmica. Não resolve tudo, mas abre portas, cria ligações e torna visível ao mundo o valor profundo destas paisagens. E isso, nestes territórios, já é muito.
Leia aqui na íntegra: Turismo rural e sustentabilidade em áreas de montanha

Grande entrevista! Vou partilhar!
ResponderEliminarJá ando há uns anos com vontade de conhecer a Casa...
ResponderEliminar