Ribacôa: Espaço Piloto do Oeste Ibérico
Ribacôa é uma comarca histórica raiana que se estende entre o rio Côa e o Águeda, desde as serras de sul até ao Douro a norte - um território de fronteira onde a geografia moldou destinos e a história inscreveu marcas profundas na paisagem.
Com cerca de 2500 km² (250 mil hectares), abrange seis concelhos portugueses (Sabugal, Almeida, Meda, Pinhel, Figueira de Castelo Rodrigo e Vila Nova de Foz Côa) e representa uma das áreas mais emblemáticas do interior português em transição.
A sua geomorfologia, descrita de forma rigorosa por Jorge (2009) no estudo sobre a bacia hidrográfica do Côa, revela uma sucessão de planaltos aplanados interrompidos por vales profundamente encaixados, com altitudes que variam entre os 130 metros na foz e os 1.225 metros nas serras de nascente.
Esta diversidade topográfica gera contrastes climáticos marcados: clima temperado continental acima dos 600 metros, com mais de 700 mm de precipitação anual, e clima mediterrânico seco nas cotas baixas, onde a precipitação pode descer abaixo dos 400 mm.
Historicamente estruturada pela cultura extensiva de cereal e pela pastorícia de percurso, Ribacôa sofreu, desde os anos 1960, um dos processos de despovoamento mais severos da Europa: -72% de população entre 1950 e 2021, com densidades atuais de apenas 9,5 a 16,5 hab/km². Este colapso demográfico permitiu, paradoxalmente, a regeneração espontânea de vastas áreas, com expansão de matos, bosques mediterrânicos e corredores ripícolas funcionais.
Cerca de 70% do território integra hoje a Rede Natura 2000, incluindo a Reserva Natural da Serra da Malcata, o Parque Natural do Douro Internacional e a Área Protegida Privada da Faia Brava - primeira reserva de rewilding de Portugal.
Ribacôa funciona, assim, como espaço piloto para repensar o futuro dos territórios rurais europeus de baixa densidade. Aqui cruzam-se desafios de governação, conservação da natureza e identidade cultural. Aqui testam-se modelos de coexistência entre abandono e revitalização, entre memória e inovação.
O que fazemos com este território define, no fundo, que futuro queremos para a nossa paisagem. (imagens retiradas de Jorge MAG (2009) Geomorfometria da bacia hidrográfica do rio Côa. Relatório de bolsa, IGOT - ULisboa - https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/49c2579d-0d82-4f6d-87e0-cdcdffb80f88)


Comentários
Enviar um comentário